sábado, 16 de outubro de 2010

"Raças" humanas?


A diversidade humana é, há tempos, discutida por filósofos da humanidade. Entretanto, todas as discussões que existiram sobre “raças” humanas envolvem apenas o nível fenotípico, de aparências.
A variabilidade fenotípica é vista em várias etnias diferentes, assim como há variabilidade populacional em outras espécies por compartilharem ambientes diferentes e por um relativo isolamento reprodutivo geográfico, que faz com que cada população tenha sua própria característica.
No entanto, quando analisamos as populações humanas a nível genômico, a diferenciação não é tão simples assim. A variabilidade genética da nossa espécie é muito baixa. As características físicas desses grupos representam adaptações ao meio ambiente, sendo então produtos de uma seleção natural que age sobre alguns poucos genes. Variações fenotípicas visíveis, tais como cor da pele, cor dos olhos, forma do nariz, etc, são regidas por pouquíssimos genes quando comparadas com variações moleculares de “maior” importância. A anemia facilforme, por exemplo, era vista como uma doença típica de africanos ou afro-descendentes. Um estudo realizado recentemente na UFMG (link) constatou que a 15% dos casos no estado de Minas Gerais é formada por indivíduos com 85% de ancestralidade européia.
Quando queremos distinguir um europeu de um africano, p. ex., podemos conseguir com êxito quando estamos analisando os dois indivíduos fenotipicamente. Apesar disso, quando analisamos apenas o nível genômico (como o exame de um DNA forense, por exemplo), a facilidade de identificação desaparece completamente.
O ponto crucial para abolirmos completamente o termo “raças” quando nos referimos à nossa espécie é a avaliação das diferenças individuais. Vários estudos constataram porcentagens de polimorfismos individuais e entre “raças” de seres humanos e os resultados sempre foram próximos a:
· 85% de diversidade entre indivíduos de mesma população;
· 8,3% de diversidade entre populações diferentes;
· 6,3% entre “raças” distintas.
Portanto, como podemos definir “raças” se a variação genética é de apenas 6,3%? Compare com a variação individual de 85% e podemos compreender o motivo do erro cometido.
No Brasil, a situação á ainda um pouco mais complicada. Todos os estudos de miscigenação já realizados confirmam que a população, independente da região onde se encontra, possui ancestralidade africana, européia e ameríndia, diferindo apenas na porcentagem entre elas. A variabilidade genética da população brasileira é gigantesca. Todos nós somos afro-descendentes, euro-descendentes e ameríndio-descendentes.
Do ponto de vista genético e biológico, então, raças humanas são indiscutivelmente inexistentes. Talvez o termo tenha um significado cultural e político, mas também acaba por cair em alguns preconceitos e não é bem visto por grande parte da população.
Este ano tivemos nossas casas visitadas por trabalhadores do IBGE para realizarem o censo de 2010. Uma das perguntas que eles fazem e que várias pessoas não souberam responder foi “como você define sua cor?”.
Em uma palestra no 56º Congresso Brasileiro de genética, o Dr. Guilherme Suarez-Kurtz fez uma grande ressalva quanto a isso, comentando que cor é uma característica de variação contínua e muitas vezes não diz muito sobre a ancestralidade do indivíduo. Ele chegou a mostrar e cantar uma música feita sobre o censo do IBGE (uma crítica) que particularmente achei muito interessante, e diz muito sobre nossa população:
GRES ACADÊMICOS DO IBGE
Esplendor e Glória de um Mameluco Cafuzo na Corte do Censo
De João Pimentel, Marceu Vieira e Arnaldo Bloch
Hoje o Censo bateu
na porta da minha casa
perguntou a minha idade,
minha renda, minha prosa
meu grau de escolaridade
meu sexo, minha glosa

Brasileiro sei que sou,
carioca classe média
trabalho quase de graça
pra tomar a minha média
Mas um fato me encucou
Qual é a minha raça?
maluco, tou maluco
eu não sei quem sou na praça

Sou mameluco , sou cafuzo?
Negro de keto ou nagô?
Amarelo, pardo, índio,
minha cor qual é que é?
Judeu, ateu, ET
Cristo, buda, oxumaré
Qual é a minha tribo
Responde, IBGE!

Preciso
de um geneticista russo
Preciso
de uma enfereira
que me tome o pulso
preciso
de um cientista americano
e de um pai de santo
carioca ou baiano

para saber quem sou
nessa aquarela
a vantagem que vou ter
se for preto ou balela
se sou um homem sério
tenho cota pra banguela
ou picareta branco,
sem nome, sem donzela

Descendente de Zumbi,
Conselheiro, ou Arariboia?
Meu pai me disse "Aí:
eu já estou na paranoia
Dom Pedro ‘Alves’ Cabral
Virgulino, Tiradentes?
com seu pé lá da cozinha,
mamãe jura que é inocente!

Quem eu sou? (breque)

Quem eu sou?
Negro arara, branco ou vira-lata?
Quem eu sou?
Feijão manteiga ou chocolate de nata?
Quem eu sou?
Cabelo enrolado de nariz virado...
Quem eu sou?
Um branco pardo qualquer
ou um preto desbotado?

Diz aí como é que éééé...
minha cor, IBGE?!
Diz aí como é que éééé...
meu nariz, IBGE?!
Diz aí como é que éééé...
Meu cabelo, IBGE?
Diz aí como é que éééé...
Quem eu sou, IBGE?
Diz aí como é que éééé...
Quem eu sou, IBGE?
Se quisermos dividir a espécie humana em raças, o mínimo que podemos dividir é em 6,5 bilhões de indivíduos.
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Fonte principal: PENA, Sérgio Danilo. À flor da pele: Reflexões de um geneticista. Rio de Janeiro, Editora Vieira & Lent, 2007.

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14 comentários:

  1. E no caso de bichos como cães e gatos, há então diferenças genotípicas largas entre populações?

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  2. Sim, as raças desses animais são mais diversificadas. O tempo de geração deles é menor e o surgimento de tantas raças diferentes foi em sua maioria através de seleção artificial, ou seja, manipulada pelo homem. A taxa de endogamia (cruzamento entre indivíduos aparentados) é também grande, o que favorece a formação de indivíduos semelhantes entre si e diferentes dos demais. Tanto são diferentes que existem algumas patologias específicas de uma raça X que não aparecem em uma raça Y, o que não vemos acontecer em humanos, além, é claro, das evidentes diferenças fenotípicas.

    Beijo!!

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    1. Ótima resposta!!! Me respondeu várias dúvidas.

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  3. Gostaria de saber a razão de porque o ADN está na base da diversidade de raças humanas, nos termos de cor de cabelo, sexo, doenças herditarias, cor dos olhos, etc.

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  4. 6,3 % é pouco pra vc?

    85%? Depende do que se trata...

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  5. Considero que essa discusão foi causada por um confusão entre os termos espécie e raça e o mau uso feito por racistas. É óbvio que somos todos da mesma espécie, porém há sim raças diferentes. Caso contrário, não seria correto voce distinguir seus cães, gatos e pássaros por raças. É a mesma coisa, porém, por maus costumes religiosos, o homem tenta sempre se diferenciar dos demais animais, insistindo que as mesmas regras não se aplicam a nós mesmos. Não importa se as divergencias são causadas artificialmente ou naturalmente, ambas podem gerar novas raças.

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  6. Sim, humano também tem raça. Certa raça humana pode processar leite quando adulto. Surpreendeu-se? Se vc tem flatulencias com leite e queijo, procure saber o porque~.
    Não é mais necessário tanta hipocrisia e comedimento sobre esse assunto... Sem dúvida é mais um 'problema' que deveria ser discutido abertamente e não varrido pra baixo do tapete..

    Entre as diferenças de uma raça humana pra outra uma caracteristica interessante: A média do QI entre raças varia de 80 até 110. Pouco? Segundo fontes não confirmadas Einstein teria QI ~160 (ou 240 segundo outra escala).
    As diferenças no DNA de uma raça pra outra gira em 0.5%. A diferença entre o DNA de um humano e um chimpanzé é na faixa de 3%...
    Outra coisa interessante é o porque~ da 'evolução' humana ter se acelerado pelo que parece? Pelo que entendi houve um salto 'mental' nas últimas gerações.

    Tem um documentario da BBC acho, que tem mais informação: Through the Wormhole S03E02 Is There A Superior Race. Procura no youtube..

    Esse lance de QI é muito relativo, eu tenho 120 e até hoje não vejo vantagem em enchegar 'algo mais' dentre a multidão. Na verdade isso só me trouxe traumas na infancia que me corroem até hoje...

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  7. Nota-se que o corroem....

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    1. Bem colocado: "Nota-se que o corroem...."

      "End of the World", não deixe essa "corroeira" abalar o seu poder de avaliação e interpretação. Sugiro usar os 120 de QI pra perceber que o artigo do brother aqui é um alerta para o mau uso do verbete "raça" nada a ver com o "varrimento" pra baixo do tapete.

      Abolir o uso desse termo para definir características fenotípicas. Já que você colocou a disparidade entre seu QI e o do tio Alberto: e aí? Isso determina que são raças diferentes?

      Um pitbull com pelo marrom é de raça diferente de um pitbull de pelo branco?

      A gente tem que tomar cuidado com essa onda aí, e é o que eu consegui absorver desse texto ducaraleo!

      Existe raça sim, mas não é essa parada de negro, pardo, "puta" e "boiola".

      Se liga na parada, não deixe feridas passadas afetarem seu senso crítico. Todo mundo passa por isso às vezes, por isso que é sempre bom ter alguém pra dar um "plá".

      ¶;D~

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  8. É engraçado ver pessoas que não sabem nada de genética falar do assunto como se soubessem. Compare um lobo siberiano com um cão husky-siberiano e você não saberá dizer qual é o lobo e qual é o cão, agora compare o cão Husky siberiano com um cão Pinscher... as diferenças se tornaram bem nítidas,não é. Como pode o Husky siberiano parecer mais semelhante do lobo que é um animal de OUTRA ESPÉCIE (Canis lupus) do que com um animal que é de sua mesma espécie que é o Pisncher ( Canis familiares). Isso ta explicado no texto acima que vocês não leram direito. São muito pouco os genes que definem os fenótipos externos como cor, altura, e textura de pelos e etc. Os genes que definem fenótipos externos não possuem significância molecular suficientes para distinguir individuas de uma mesma espécie em sub-espécies (raças), por isso que, e apesar de o Pischer e o Husky serem de sub-especies diferentes, ainda sim são mais semelhantes geneticamente do que o Husky e o Lobo, que fenotipicamente são muito semelhantes mais geneticamente nem tanto, sendo portanto de outra espécie. A provável sub-espécie do ser humano morreu a alguns bons milênios atrais, este era o Homo sapiens neandertalês, que de acordo com algumas teorias ao cruzar com o Homo sapiens sapiens, gerava um hibrido infértil, outras teorias dizem que esta RAÇA de homem menos desenvolvido intelectualmente possa ter cruzado com o homem Europeu, até por que Neandertal é uma região da Alemanha.

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  10. Como vai comparar a Alemanha com a miserável África, América Latina, Índia, Bangladesh, Paquistão e outros miseráveis do terceiro mundo?! É tem Babacas e Burros que acham que as raças são "iguais"!

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    1. Alemães, que se dizem arianos, devem saber que os verdadeiros Arianos não tem ancestralidade Neanderthal, e sim (do povo alienígena) Anunnaki.

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    2. Esse país quer negralizar todo mundo.

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